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Entretenimento   29 de Março de 2017 - Publicado às 10:29

Bairros de Salvador veem nascer inúmeros artistas e bandas

Liberdade, Pelourinho, Engenho Velho de Brotas, São Caetano, Periperi, Garcia...

Da Liberdade, veio o Ilê; do Pelourinho, o Olodum; do Engenho Velho de Brotas, o Psirico; de São Caetano, o Harmonia; de Periperi, o Araketu; do Garcia, Riachão e o samba... É como se os bairros de Salvador fossem verdadeiros celeiros da música. “Se você tocar um tamborim às três da manhã no Engenho Velho, todo mundo acorda e vira festa”, brinca Márcio Victor, percussionista e vocalista do Psirico.

“Eu andava com o timbau o dia inteiro, de um lado pro outro”, lembra o artista, que começou a se relacionar com a música no afoxé Badauê, cuja sede ficava no Engenho Velho. Familiares de Márcio, inclusive seu tio Ninha, ex-vocalista da Timbalada, integravam a direção do bloco. “O Badauê tinha também a escola Atabaques, lá no bairro, e foi lá que comecei a tocar”.

E foi num dos redutos da música do Engenho Velho, o Bar Flor do Engenho, que Márcio compôs um dos primeiros sucessos do Psirico - Escovadinha. “Ali tinha a melhor comida baiana de Salvador. A gente estava sentado lá, comendo, e na brincadeira fez essa música que levantou o Psirico”, recorda.

O músico também frequentava outro bairro famoso pela música, o Garcia, conhecido principalmente pelo seu samba. Foi lá que Márcio conheceu Filipe Escandurras, um dos mais bem-sucedidos compositores baianos da nova geração, co-autor de sucessos como O Doce e Lepo Lepo. “Minha base é o Engenho Velho, mas eu ficava muito no Garcia, que me ensinou demais. Ali é o berço do samba e ferve culturalmente”, diz Márcio.

Beco da música
Filipe passou a adolescência no Garcia e, embora não seja um sambista de raiz, reconhece que o samba foi essencial em sua formação musical. Não à toa, cerca de 150 familiares seus moram num lugar conhecido como Beco do Samba, lá no Garcia. “É uma avenida onde moram os parentes de meu pai. Eu tinha uns nove ou dez anos e já ia às rodas de samba na Ladeira do Garcia, perto do Aconchego da Zuzu (restaurante). Eu já acordava com o samba, dormia com o samba...”, lembra o compositor.

Escandurras é filho de Roque Bentequê, sambista da velha guarda baiana, hoje aos 74 anos. Quando criança, ele ia com o pai ao bar Habeas Copos, na Barra, onde Bentequê regia a banda local. Foi lá que ganhou, de um amigo do pai, seu primeiro instrumento, um cavaquinho. O músico estudava no colégio Edgard Santos, em frente à casa de Riachão, e lembra que, quando saía de lá, dava de cara com o sambista cantando. “Eu via também muito artista por lá. Muito 'global' ia ao Tia Célia, que já recebeu Thiaguinho e Regina Casé.”

Foi lá mesmo, no Garcia, que nasceu Lepo Lepo, a canção que mudou a vida de Escandurras. Ele vivia num kitnet no Beco do Samba e chamava os amigos para compor. “Tive a bênção e, junto com Magno, em 30 minutos, fizemos esse sucesso que estourou internacionalmente.” 

Pesquisa
Se o samba de raiz é a marca do Garcia, o Centro Histórico é marcado pela força do samba-reggae, como destaca Milton Moura, professor de história e coordenador do grupo de pesquisa o Som do Lugar e o Mundo. “A Liberdade e o Pelourinho são fundamentais para o samba-reggae. O Ilê levou o ritmo para a cidade inteira. Mas vale lembrar que nos anos 70 já tinha o Amantes do Reggae, que desfilava ali pela Avenida Heitor Dias (Vila Laura)”, ressalta Milton.

O pesquisador destaca ainda a Cidade Baixa: “Dali, saíram Dodô e Osmar, Margareth Menezes, Raul Seixas, Banda Mel, Laurinha (ex-Cheiro)... Raul cantava ali porque era na Cidade Baixa que estavam as fábricas e vale lembrar que não há rock onde não há industrialização.”

Margareth lembra das serestas na Avenida Luiz Tarquínio, onde via Edson Sete Cordas e Seu Nonô, seu primeiro professor de violão. O samba de roda saía do Recôncavo para a Ribeira. “Muita gente vinha morar na Cidade Baixa. E essas pessoas tinham uma relação muito forte com o samba.”

No outro lado da cidade, em Itapuã, já nesta década, surgiu a banda Duas Medidas, de Lincoln Sena. “É um bairro muito musical. Tem muitas casas de show e tinha muita apresentação improvisada nas barracas de praia, que já não existem mais”, diz o vocalista.

No Samba Café, o antigo Messias, ele fazia “som de barzinho”. Ficava na porta da casa “puxando a galera pelo braço”. Pelas primeiras apresentações, ele e os cinco colegas não recebiam nem um centavo. “Um dia, tive uma reunião com os donos e cheguei em casa feliz, porque tinha conseguido meu primeiro cachê: 12 garrafas de água mineral - lacradas, porque eu sou muito desconfiado - e uma travessa de carne do sol. E eu nem comia, porque não dava pra todo mundo”, conta, rindo.

Parando nas barracas e nas rodas de capoeira que havia no bairro, ele ia conhecendo outros músicos. Às vezes, passava na porta de uma casa ou de um bar onde estava tendo um sarapatel ou uma feijoada e conhecia instrumentistas, com quem se juntava para se apresentar. “E ainda ganhava um pratinho de comida”, brinca. E assim foi criada a Duas Medidas, que, no início, tinha cinco integrantes, todos de Itapuã.

Mas Milton Moura alerta que esse surgimento espontâneo de bandas e de músicos nos bairros está ameaçada: “A frequência dessas festas de rua está diminuindo e a violência é um dos motivos. Infelizmente, depois das 20h, esses bairros estão desertos. E há um outro problema: os donos de bares estão substituindo os músicos pelos DVDs, afinal é mais barato do que pôr um artista pra tocar ao vivo, em boas condições”.

A cantora lembra que se iniciou musicalmente no Grupo Jovem da Igreja de Boa Viagem. “Eu era do Coral da Congregação Mariana de Boa Viagem e me apresentava por ali, na Penha, no Bonfim. Foi uma fase muito importante para mim. Embora eu não tivesse planos de me tornar cantora, eu eduquei o meu canto nesse período.”


Fonte: Correio24horas / Foto: Evandro Veiga


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